quinta, 20 de janeiro de 2022
Crack nem pensar

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Publicado em 11/07/2016 11h30

Um estranho na cidade

 

Fazia um bom tempo que eu não circulava no centro de João Pessoa. Amigos me recomendaram a busca do Terceirão – o Camelódromo instalado sobre parte do teto daquele túnel escavado no eixo da Miguel Souto por baixo dos cruzamentos com a Visconde de Pelotas, a Duque de Caxias e a General Osório – e lá fui eu.

 

Não consegui estacionar em qualquer dessas três ruas, apesar da grande extensão de faixas apelidadas “Zona Azul” e do credenciamento obtido da Semob após o chá de cadeira numa dessas Casas da Cidadania. Cadê as vagas reservadas ao idoso que sou (tudo bem, assumo) e que a Prefeitura, mesmo assim, insiste em confirmar? Aliás, para quê? Somente para abater um ânimo a cada dia mais aquebrantado? Não bastaria ao guarda de trânsito enxergar o óbvio?

 

Desisti depois de três voltas e rumei para o pátio do antigo Colégio de Nossa Senhora das Neves, hoje uma faculdade privada. Fechei o carro e subi a pé até a esquina da Biblioteca Pública, onde começa o primeiro corredor da série imensa de boxes especializados, em sua maioria, na venda e conserto de produtos eletroeletrônicos.

 

Eu procurava casca e tela novas para o tablet que Miguel trincou com a licenciosidade dos seus três anos (dele, do neto, não do aparelho que o pai, meses atrás, me presenteara). Dias antes, na oficina autorizada, o atendente olhou-me como se eu fosse um marciano quando pedi o orçamento para o reparo. “Melhor comprar outro”, sentenciou.

 

O dinheiro curto e a imprevidência é que me fizeram rodar feito um doido nas ruas e no interior do Camelódromo. Desculpem, do Shopping Centro Terceirão, como está na placa da obra assim batizada em memória de Dorgival Terceiro Neto, ex-governador, o sujeito mais informal que eu tive a oportunidade de conhecer em cargo tão importante (o dele, não o meu). Não lembro o nome do prefeito-tatu que perfurou aquele buraco todo (em cuja tampa o Shopping se assenta) desde quase a beirada da Lagoa até perto dos fundos do Teatro Santa Roza.

 

Perdi meu tempo. Não encontrei, também ali, casca nem tela do mesmo modelo. Mas não perdi a chance de observar umas tantas coisas. Aquilo é informalidade ao ponto da esculhambação. É território onde a China e o Paraguai dividem fronteiras sem rusgas nem ruídos. Imposto? Talvez, só aquele que a prefeitura deve cobrar pela ocupação do solo, nessa terra de ninguém.

 

A meio caminho, de volta ao carro, pude perceber que o infeliz proprietário de um automóvel não deixa de pagar pelos cuidados dos flanelinhas apesar de o fiscal da Zona Azul já tê-lo alcançado. Presumo, enfim, que seja melhor dispensar algum à turma da flanela do que ter o carro riscado.

 

Retornei ao lar, por curiosidade, pela Ladeira da Borborema até a Cardoso Vieira e, daí, pela Beaurepaire Rohan e Rua da República. Também, nessa área, quase já não há espaço para gente e carros.

 

Senti saudade do tempo em que se podia escolher, sem barulho, pressa nem correria, o corte de tecidos para a calça e a camisa preparadas a capricho na camisaria, ou no alfaiate da esquina. Como tenho dito, tempos idos.


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